EX-PRESIDENTES
Manoel Nery Batista
Manoel Nery Batista (Manelito): O Articulador de Campo e Presidente da Modernização da ACA
ABAETETUBA – Se as páginas da história da Associação Comercial e Empresarial de Abaetetuba (ACA) pudessem ser resumidas no esforço de um único homem de bastidores e de ação, o nome de Manoel Nery Batista, popularmente conhecido como “Manelito”, emergiria como o exemplo máximo de resiliência.
Em uma trajetória de mais de trinta anos que cruza os períodos mais severos de inflação nacional, transições patrimoniais complexas e debates políticos espinhosos, Manelito serviu à classe empresarial em quase todas as frentes: de suplente de conselho fiscal a primeiro-secretário, tesoureiro, diretor de patrimônio, diretor social, e, finalmente, presidente executivo por dois mandatos cruciais. Esta é a crônica jornalística de um líder que moldou a sobrevivência do comércio local com criatividade prática e firmeza administrativa.
O Início nos Bastidores e a “Revolução dos Boys de Cobrança” (1981–1989)
A jornada de Manoel Nery Batista na associação comercial começou de forma modesta em 16 de julho de 1981, quando foi eleito Suplente do Conselho Fiscal na diretoria liderada por Francisco Maués Carvalho. Seu perfil participativo e atento aos detalhes burocráticos fez com que ganhasse espaço rapidamente.
Em 30 de outubro de 1987, Manelito foi escalado como um dos responsáveis diretos pela redação final do novo Estatuto Social da ACA, ao lado de lideranças históricas como o Dr. José Brandão e Flávio Bacchini. Menos de dois meses depois, em 19 de dezembro de 1987, ele consolidou sua ascensão interna ao ser eleito 1º Secretário da Diretoria Executiva de Jamir Nery.
Foi no ano de 1988, contudo, sob o peso asfixiante da hiperinflação do governo Sarney, que Manelito revelou seu talento para soluções práticas de mercado:
- O “Gatilho” de Filiação: Em março de 1988, diante de uma grave evasão de associados inadimplentes, ele defendeu que a ACA adotasse uma postura pragmática: permitir o retorno de antigos sócios desde que estes quitassem de forma parcelada seus débitos.
- Os “Boys” Comissionados: Em 30 de março de 1988, constatando o fracasso da arrecadação espontânea de mensalidades, ele propôs na plenária a contratação de “boys comissionados” equipados com crachás de identificação oficial para cobrar os comerciantes de porta em porta. A ideia, ampliada para a contratação de quatro a cinco cobradores, salvou as receitas da sede e foi formalmente registrada em ata lavrada por ele próprio.
- O Sacrifício na Crise: Em 04 de maio de 1988, quando o caixa da ACA não dispunha de fundos para pagar o salário da secretária, Manelito liderou pelo exemplo, colocando seu nome na lista seleta de comerciantes que aceitaram triplicar voluntariamente suas mensalidades para o patamar emergencial de Cz$ 1.000,00.
Nesse período, destacou-se ainda como o articulador das noites festivas do comércio nos eventos religiosos locais, coordenando leilões e doações de brindes para as festividades do Coração de Jesus, do Círio e da festividade de Nossa Senhora da Conceição. Paralelamente, atuou na redação e assinatura de diversas atas administrativas de transição.
A Era do Rigor Financeiro e a “Polêmica do Xerox” (1991–2000)
O início da década de 1990 exigiu das lideranças da ACA mão de ferro sobre o caixa devido ao descontrole monetário que antecedeu o Plano Real. Em 04 de fevereiro de 1992, em uma reestruturação de cargos em Assembleia Geral, Manelito foi empossado como 1º Tesoureiro da gestão presidida por Manoel da Silva Batista (Seu Jurita). Sua primeira atitude no cargo foi exigir transparência absoluta, solicitando uma explanação minuciosa de toda a situação financeira e contábil da tesouraria.
Como tesoureiro e conselheiro da Comissão de Edificações da Sede Campestre, Manelito pautou suas decisões pela máxima austeridade:
- Veto a Gastos Supérfluos: Em agosto de 1992, ele interveio energicamente contra a proposta de limpeza imediata do terreno da Sede Campestre, classificando a obra como um “desperdício de dinheiro” naquele momento de caixa apertado.
- Prudência Técnica: Em setembro de 1992, convenceu a diretoria a congelar o projeto de construção de um muro perimetral no terreno campestre até que se obtivesse a avaliação e o parecer técnico prévio de um engenheiro.
- O Debate do Xerox: Em 14 de outubro de 1992, Manelito protagonizou um memorável confronto de ideias com o presidente Seu Jurita. Visando expandir o apoio social da entidade, Manelito defendeu a concessão de um desconto de 50% na tarifa de cópias para determinadas pessoas necessitadas. O presidente barrou a proposta sob o argumento de rigor estatutário, exigindo o preço de mercado para não-sócios.
- Gestão do Gabinete Dentário: Quando o Dr. Afonso Sarges recusou-se a assinar o contrato de locação do consultório dentário da ACA por considerá-lo excessivamente caro, foi Manelito quem assumiu a responsabilidade direta de conduzir novas rodadas de negociação e zelar pelo equipamento lacrado.
Reconhecido pela integridade fiscal, retornou ao Conselho Fiscal em 1993. Em 1996, assumiu o cargo de Diretor Social na gestão de Jorge Dohara, liderando comissões setoriais motorizadas e a pé para arrecadar doações e estruturar a “Noite do Comércio”. Em 1998, foi reeleito para fiscalizar as contas da chapa “Ano 2000 Ideal”.
Preservação do Patrimônio e Articulação Social (2001–2004)
Na virada do milênio, sob a presidência de José Raimundo Silva Cardoso, Manelito continuou exercendo papel estratégico na sustentação institucional da ACA. Em novembro de 2002, durante as reuniões de diagnóstico do “Projeto Empreender”, alertou a diretoria sobre o distanciamento de alguns membros, exigindo que o projeto fosse amplamente explicado para gerar engajamento prático da classe lojista.
Como Diretor de Patrimônio em 2003, atuou na linha de frente da proteção dos ativos físicos da associação:
- Vigilância Patrimonial: Alertou a mesa diretora que as chuvas intensas de inverno haviam inviabilizado o acesso ao terreno da Sede Campestre. Em agosto de 2005, empenhou-se na legalização e demarcação definitiva do lote para evitar ameaças de invasão.
- Mediação de Empregos: Diante da iminente falência de uma grande indústria local que ameaçava demitir mais de 60 trabalhadores, integrou a comissão extraordinária da ACA criada para negociar com a gerência e buscar soluções junto ao poder público.
- O Motor do Miritifest: Em março de 2004, assumiu o cargo de Coordenador Geral e de Captação de Recursos do Festival do Miriti. Visando gerar receitas extraordinárias recorrentes para a ACA, sugeriu de forma audaciosa que a própria associação montasse e gerisse uma barraca/restaurante de alimentação durante as festividades. Em janeiro de 2004, garantiu a blindagem jurídica da entidade no acordo com o Movimento Universitário de Pará.
A Presidência da Reconstrução e Combate ao Crime (2005–2008)
Em 14 de dezembro de 2004, Manoel Nery Batista alcançou o ápice de sua história de dedicação ao ser eleito Presidente da Diretoria Executiva da ACA para o biênio de 2005/2006. Sua liderança foi considerada tão equilibrada e bem-sucedida que, em agosto de 2006, os diretores aprovaram por absoluto consenso a reeleição de sua chapa para o período de 2006 a 2008.
Seu mandato foi marcado por três grandes frentes de batalha:
- Aproximação e Fortalecimento Comercial: Lançou campanhas descentralizadas de filiação, reorganizou as contas herdadas com as faturas da Xerox, adquiriu novos computadores para a secretaria e implementou o programa de crédito Pará Digital em parceria com o Banco do Brasil e a FACIAPA.
- A Trincheira contra a Criminalidade: Em maio de 2006, em reunião tensa convocada juntamente com o Conselho de Segurança Pública (Consepe), o presidente Manelito subiu ao púlpito para criticar duramente a precariedade do policiamento em Abaetetuba. Denunciou que o policiamento ostensivo no centro e no mercado municipal durava “apenas três dias” e depois desaparecia, exigindo que a ACA financiasse a compra de filmadoras para que os lojistas pudessem documentar de forma segura as ações de criminosos e “bocas de fumo”.
- A “Unificação” do Natal Feliz: Com visão humanitária e comercial, propôs em 2006 a unificação de todas as campanhas sociais de fim de ano sob a bandeira do projeto “Natal Feliz”. Manelito justificou que a pulverização de pedintes institucionais “sufocava e chateava” o lojista, defendendo que uma única e grande arrecadação centralizada em alimentos e realizada em parceria com a Diocese traria maior lisura e impacto social.
- Gestão do Miritifest: Sob seu governo, a ACA consolidou o sucesso do IV Muritifest sem registrar déficits e equacionou pendências orçamentárias antigas.
O Vice-Presidente e a Bússola Ecológica (2008–2012)
Ao transmitir a presidência a Benedito Bitencourt no final de 2008, Manoel Nery Batista não se aposentou. Assumiu o cargo de Vice-Presidente Executivo e continuou exercendo papel de liderança intelectual.
Em 22 de dezembro de 2008, durante a I Assembleia Geral de Desenvolvimento, Manelito discursou sobre o planejamento logístico municipal, cobrando uma atenção especial para as oportunidades criadas pelo funcionalismo público local e para a capacitação profissional. No mesmo encontro, apoiou as manifestações ambientais ao alertar contra os riscos da implantação de um Polo Industrial desordenado em Beja, defendendo que a captação de água do município devesse ser resguardada a qualquer custo contra resíduos químicos poluidores.
Em janeiro de 2009, liderou a estruturação física da sala do consultório odontológico na sede própria, defendendo o fechamento de convênios médicos com mensalidades de R$ 70,00 por empresa participante para ampliar a saúde dos associados. No mesmo ano, realizou um balanço crítico construtivo sobre os gargalos organizacionais do Muritifest.
Em março de 2012, sua longa folha de serviços dedicados à classe foi reverenciada no plenário da sede própria.
Manoel Nery Batista, o “Manelito”, encerra sua fase de participação ativa nos registros como a espinha dorsal da ACA: o homem de campo que ergueu o patrimônio com as mãos e protegeu as contas com o rigor ético de um verdadeiro guardião do associativismo do Baixo Tocantins.
← Voltar para Galeria de Presidentes